Existem lares que nascem conosco. E outros que construímos – uma luz natural aqui, um ornamento ali, uma plantinha acolá – até que falem a nossa língua.

Na visita à CasaCor Peru, em Magdalena del Mar, o que mais chama atenção é isto: cada ambiente tem sua personalidade própria, e eu aplaudo de pé essa coragem.
Na ‘Seccion Victor Larco Herrera’, o 30º aniversário da CasaCor Peru é um convite às luzes quentes e naturais, com linhas retas, ornamentação cultural e uso de materiais naturais refinados – averso ao padrão urbanístico e cheio de rótulos. A simplicidade e a sofisticação convergem em um sotaque próprio, de ritmo íntimo e cadenciado de dentro pra fora.
Nada ali tenta esconder sua origem. Tudo é história, quando contada nas entrelinhas. Talvez seja essa elegância discreta com o ‘toque do chef’ (a personalidade) que sentimos falta em muitas exposições, essa rota de fuga contra o “mais do mesmo”. Na era de referências prontas, paletas aprovadas e fórmulas seguras, é inspirador caminhar por espaços que se bastam – por si só.
E as abóbadas externas e internas com grandes aberturas, esculturas, vãos generosos e paisagismo tropical no interior do ‘Puericultorio Pérez Araníbar’ são verdadeiras extensões dos espaços de convivência. Esses ambientes não querem seguir ideais alheios, pelo contrário, são pensados pela ótica de dentro pra fora, na visão daquele que conhece suas origens e que não jogou fora suas bagagens.
Eis o veredito: a mostra não quis ser tendência, quis ser verdadeira.
Ali é arquitetura que não só abriga, mas acolhe. E narra processos, afetos, escolhas. Tudo ali tem um porquê — não técnico, mas emocional. Aqui converge naturalismo e modernidade, brutalismo e suavidade. Tudo implica em um grande contraste de materiais que lembram as várias camadas que temos. É como se cada projeto fosse criado com a escuta aberta para as raízes de quem vive ali, e isso fez total diferença.
É o que costumo dizer nas primeiras conversas com clientes, ‘não existe certo, não existe bonito, existe o que conversa com a sua história. A casa não precisa ser perfeita — precisa ser honesta.’

A CasaCor Peru mostra isso com leveza e autenticidade. Não tentou harmonizar tudo. Preferiu tensionar, provocar, afirmar. As cores são vivas, onde quer que você passe. Mornidão não é com eles, deixaram o cinza para trás – e que acerto, viu? Em vários cômodos, você vê pelo menos umas seis paletas, mas não há incômodo em ver o verde, azul, branco, preto, caminhando lado a lado. E é justamente nesse gesto de não querer agradar que os espaços se tornaram vivos.
No fim das contas, verdade seja dita, não existe regra pra viver bem. Existe escuta, coragem. E aquele brilho no olho que só aparece quando tudo faz sentido — ainda que só pra você.
E talvez esse seja o maior valor de uma casa: quando deixa de ser cenário e vira extensão. Quando não tenta esconder o que somos, mas oferece espaço para que sejamos ainda mais. Quando respeita os silêncios, as memórias e até as contradições de quem vive ali. Na CasaCor Peru, o recado foi dado com sofisticação e verdade. Seus ladrilhos antigos, o mármore refinado, o paisagismo, a simplicidade, sua aquarela de cores, abóbodas caprichadas, esculturas, seu conceito ou conforto, sua criatividade; some tudo! O saldo final é personalidade.

Rafaela Giudice – Arquiteta e Urbanista, especialista em obras rápidas e engenharia simultânea, pós-graduada em design de interiores, MBA em neuroarquitetura e design do bem-estar humano. Rafaela também é gestora do escritório BESPOKE DELA, com projetos que podem ser conferidos neste link.
Instagram: @bespokedela

